quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Em construção permanente

Em construção permanente. Assim é a Democracia, assim são as sociedades mais justas, sempre prontas a questionarem-se e a redefinir os seus limites, os quais obrigam aos mais difíceis equilíbrios e, no fundo, lhe dão forma. Essa construção também pressupõe o estar sempre atento às tentativas de destruir o que resulta de anteriores conflitos e que, como tal, constitui um precioso legado moral e cultural. O serviço público de televisão e rádio é um desses casos, pelos quais não devemos vacilar, um momento que seja, em sua defesa. 

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Interiores para quê?

Numa esplêndida tarde de verão, poder escrever estas linhas numa esplanada abençoada pela sombra do arvoredo,  junto à Marginal, em Paço d'Arcos, é um verdadeiro luxo. Sem muito calor, mas ainda assim sentindo o balsâmico ar estival, só nos podemos sentir inspirados. É nestas alturas que me vem à mente a dúvida sobre o porquê de nós, portugueses, não sabermos aproveitar o ar livre e, em geral, preferirmos encafuados espaços interiores. Se tantas vezes gabamos - e bem - o nosso "tempo" como um dos melhores da Europa, há que fazer nada mais do que aproveitá-lo. Tão simples como isso.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dislike

Cavaco Silva continua a utilizar a mais conhecida e hegemónica rede dita "social" para enviar recados políticos. Agora, foi uma boca enviada ao presidente do Banco Central Europeu. Será que ele não percebe que exerce o cargo de PR e, nem que seja por isso, não pode ser confundido com um adolescente?

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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Verdade

Sempre me pareceu que os portugueses tinham um problema com a realidade. Quando ela não se adequa ao que os seus sonhos de megalomania os fazem supor ser, tratam de delirar à rédea solta. Um país de fantasistas. Há quem aprecie o género.

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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ver-se grego II

É claro que as atrás proferidas considerações estão longe de impedir o reconhecimento do imenso sofrimento que as medidas de austeridade estão a causar ao povo grego. Muita gente foi e será apanhada pela voragem da crise e das chamas resultantes da gasolina que sobre ela tem sido derramada. Lá, como cá, serão imensos os que, sem terem percebido porque foram convocados a pagar dolorosamente os dislates económico-financeiros cometidos por terceiros, se sentem traídos por um sistema em que acreditavam. E um dos problemas, lá como cá, reside precisamente nessa crença. É que o aparato político, formal e institucional que dá osso a uma democracia não pode ser deixado a funcionar em piloto automático, enquanto nos entretemos a consumir a crédito. Sem vigilância, sem questionar os que gerem a coisa pública - mas sempre a comprar mais e mais. Foi isso que fizeram a maior parte dos povos da Europa. Sobretudo os da sua extremidade meridional, que, sem terem a capacidade de produzir a riqueza necessária para pelo menos pagarem as despesas que iam contraindo, não se coibiram de pedirem emprestado. Como se não houvesse amanhã. Essa sensação de futuro arredado é precisamente a que muitos cidadãos hoje sentem. Os gregos podem parecer-nos meio desmiolados - e, em certa medida, são-no -, mas também os portugueses, apesar de aparentemente mais cordatos, embarcaram nessa loucura. No fundo, estamos todos a vermo-nos gregos. E uma parte substancial da culpa, embora não toda, é nossa.

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ver-se grego

O primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, terá dito hoje, ou ontem, a fazer fé no reportado por alguns jornais, qualquer coisa como "os alemães querem que nós falhemos ou então são estúpidos". Para quem tem a corda ao pescoço, e está dependente precisamente dos humores daqueles que agora vitupera, não perece ser a atitude mais inteligente. Ou então, pensarão alguns, é apenas o preciso reflexo da impotência ante a intransigência teutónica. Estas declarações surgem precisamente no dia em que se ficou a saber que a atleta Paraskevi Papahristou já não vai representar a Grécia mos Jogos Olímpicos de Londres, a dois dias  começarem, por comentários racistas sobre os africanos na sua conta do Tweeter. Suspeita-se de ligações da desportista helénica ao partido de extrema-direita neonazi Aurora Dourada, que tem ganho substancial popularidade e votos, nos últimos tempos, na sequência do agravar da enorme crise económica e social que afecta aquele país mediterrânico. Quem souber um pouco de história e faça a ligação entre os elementos rapidamente perceberá que o cenário montado no chamado "berço da civilização Ocidental" é pouco menos que assustador. Como muito bem têm referido as vozes mais acutilantes, a sociedade grega resulta de um longo, penoso e violento processo histórico, que mais tem de rosário de desgraças do que de construção. Situada na extremidade oriental do continente, a Grécia actual - e dos últimos séculos - pouco deve ao estatuto histórico e intelectual que os seus antepassados nos legaram. Ou seja, de ocidental retém o superficial e apenas alguns esparsos sintomas de comportamento e socialização, sobretudo pelo consumo e pelos modos. Mas é só aparência. Querer fazer-nos crer que "os gregos são como nós" e que "coitados, tal como a gente, estão a ser vítimas de um mal comum" aponta para a maior das patranhas. Temos muitos defeitos, como muitos povos, mas, por favor, não nos metam no mesmo barco.

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terça-feira, 19 de junho de 2012

A dormir com o poder

Os jornais contam o sucesso da "operação Joana Vasconcellos" em Versailles (Paris), à qual se juntou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. Já em Lima, capital do Peru, onde o primeiro-ministro Passos Coelho se deslocou em visita oficial, a ocasião foi assinalada com um concerto da fadista Carminho. Estes são nomes que, tantas vezes, surgem referidos como "jovens promessas da cultura portuguesa". Os políticos adoram vestir as roupas do "prestígio" trazido pelas gentes das artes. Sempre assim foi. O que incomoda é a facilidade com que os ditos artistas se deixam envolver por esse véu da normalização institucional. Talvez isso também digo algo sobre a sua suposta arte.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Hipótese de cartografia de um país

Uma História de Portugal poderia bem ter como título História do Desperdício e das Oportunidades Perdidas. Pelo menos, desde há dois séculos, tem sido esse o programa.

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

De barriga cheia, a lamuriar-se

Muito sem dito sobre o que, alegadamente, pouco se tem, esquecendo-se o muito que, de facto, se tem e que poucos dizem. São ingratas as gentes ocidentais, nos dias que correm. Nisso, os portugueses estão bem a par dos outros povos do mesmo hemisfério sócio-político.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ler com apetite

O sexto lugar do top ten dos livros mais vendidos da estação de correios de São Jorge de Arroios é ocupado por "Cozinhar com...Atum". Com alguma surpresa, reparámos que "Cozinhar com...natas" ocupa o lugar seguinte e "Cozinhar com...iogurte" o outro imediatamente a seguir. Em primeiro, parece que está um livro de Miguel Sousa Tavares.

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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Máquina no café

É a máquina no café. Quente, barulhenta, grande. Alimenta quem ali vai todos os dias, nem que seja por uns instantes. Ela brilha e sem ela nenhum café deste país podería ser considerado como tal. Ocupa mesmo o lugar central. Ninguém dispensa a máquina no café, seja ao pequeno-almoço, almoço, lanche ou jantar. O que dela sai a todos aquece e reconforta nos dias de Inverno. O que dela sai é barato e faz muitos dizerem que não sabem viver sem ela. Que diferença faz uma televisão no café.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Na paróquia tudo vai calmo

Um treino de fitness matinal de executivos, num parque público do Porto, passa como reportagem, ao fim de um quarto de hora. Na televisão do Estado. A turbulência em redor das eleições do Irão passa lá mais para meio do "jornal". Somos tão abertos ao mundo, nesta coisa pequenina chamada Portugal.

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terça-feira, 26 de maio de 2009

Comichão

Não sei quais os mais irritantes. Se os anúncios das operadoras de telemóveis, se os das marcas de cervejas nacionais. Tanta juventude eufórica por sabe-se lá o quê é coisa para deixar deprimido o mais optimista dos cidadãos.

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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Angola, Angola, Angola

A composição impõe o seu grunhir metálico em ascensão lá do fundo do túnel. Ao abrirem-se as portas, algures na linha verde ao fim da noite de uma sexta-feira em direcção à baixa, franqueia-se uma carruagem do metro indistinta das restantes. Três homens africanos ocupam largamente os bancos que se dispõem frente-a-frente, dois de um lado do corredor, um no outro, sem ninguém à sua frente. Falam português com sotaque cerrado de alguma lusofonia com quotidiano assente na periferia, e exalam um forte aroma a álcool. "O Scolari vai treinar Angola!! O Scolari vai treinar Angola!", grita um, olhando para os rostos pálidos de emoções dos portugueses que acabam de penetrar neste cartuxo de alumínio sobre rodas. "Pois vai!", assente o que está em frente a ele, com sorriso trocista e olhos postos num dos tugas, como que se certificando que ele escuta a conversa. "Temos muito dinheiro, Angola é rica!! Já viram isto, o Scolari vai lá estar, um dos melhores treinadores do mundo, já foi campeão com o Brasil, vai treinar Angola!". Risadas. "Os portugueses não tiveram dinheiro para o aguentar". "A Sonangol tem muita massa, muita mesmo!". "Nós é que estamos a sustentar este país", monologam agora dois deles, de roupas surradas, voltados para a potencial plateia deste diálogo. O outro, o terceiro, de cabeça inclinada para o tecto da carruagem, como se buscasse inspiração divina, e com uma das mãos a acariciar o pescoço, sorri muito discretamente. Nem parece fazer parte do grupo. Próxima estação: a que vier.   

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cena de domingo na cidade

A meio da tarde de domingo, palco de uma batalha entre um teimoso Inverno e uma Primavera que persiste em não vingar, um grande cão escanzelado divaga junto a um café, num cruzamento das Avenidas Novas. Velho, sujo, com escaras, deverá andar pela terceira idade, de certeza. Um sem-abrigo de quatro patas. Uns minutos depois, atravessa a rua arrastando um enorme saco de plástico com lixo, restos de comida, adivinhamos. Lá vai ele, zeloso, em busca de melhor sítio onde respigar o interior fedorento da embalagem de supermercado. Um empregado do estabelecimento, que parece ser brasileiro e carrega ao ombro um maço de pacotes de leite, olha-o com admiração. Sorri e continua em frente. O cão não lhe liga nenhuma e lá vai ele, a arrastar o saco.  

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Operação "Delete" Opinião Pública

De tão banal, quase que não ganha direito a ser notícia. Aqui só espanta ser um dos ditos "campeões de audiências" da imprensa portuguesa, o que quer que esse título signifique. O "Correio da Manhã" anuncia o despedimento de dez profissionais, entre os quais sete jornalistas. Fica uma dúvida: quando acabarem por despedir todos, farão jornais com quê? Notícias da Lusa?

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domingo, 19 de abril de 2009

No país dos carros cinzentos

No país dos carros cor de cinza metalizada, eles passam de um lado para o outro, confundindo-se com a tonalidade esbatida do asfalto. É só fumaça, é só fumaça, o povo é sereno! Não há outra cor disponível, dizem. É só fumaça, o povo...

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Farto

Farto! Até não poder mais. Com os Portugueses e o país deles.

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domingo, 29 de março de 2009

Remate ao lado

Perante a eminência do afastamento da selecção no acesso a uma vaga no Mundial 2010 na África do Sul - e apesar do incómodo que isso possa causa para todos quanto gostam do jogo, como eu -, não deixa de dar algum gozo ver toda aquela soberba que, nos últimos anos, cavalgou na paranóia futebolística nacional a esfumar-se. Afinal, somos aquilo que sempre fomos. Custa tanto ser normal.

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quarta-feira, 25 de março de 2009

O desaparecimento das crianças

Num ápice, como sempre acontece com os mais irritantes vícios de linguagem, todos os jornalistas, com mais incidência nos que trabalham para a TV, passaram a designar as crianças de "meninos". O menino isto, a menina aquilo, sabe-se que a menina desapareceu em tal sítio ou que o menino terá sido abusado por fulano. Já não existem crianças?

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